A estante essencial
Confira as indicações dos títulos indispensáveis, na opinião de profissionais da área
RÉGIS BONVICINO, POETA: A reedição de A Vida como Ela É, de Nelson Rodrigues (Agir): traz mais textos do que a edição da Companhia das Letras, apresenta relatos como Agonia, peça mórbida digna de Edgard Allan Poe, e reapresenta essa obra-prima, A Dama do Lotação O Império Derrotado, de Keneth Maxwell (Companhia das Letras): pela análise original e rigorosa da conquista da democracia em Portugal, em 1974, e da independência de suas colônias Poesia da Recusa, de Augusto de Campos (Perspectiva): o melhor tradutor de poesia do Brasil Orestes Barbosa, de Carlos Didier (Agir): porque amplia a visão que se tem do autor da extraordinária letra de Chão de Estrelas, revelando o repórter, o romancista, o cronista León Ferrari, de Andrea Giunta (Cocac Naify/Imprensa Oficial de SP): porque o argentino Ferrari é um dos dez principais artistas plásticos vivos do mundo, mantendo-se avant-garde sem ser repetitivo, surpreendente e crítico ao longo de décadas e também pela qualidade gráfica da reprodução de seus trabalhos.
JOSÉ CASTELLO, JORNALISTA E ESCRITOR: O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras): que reafirma, ao tratar de escritores como Kafka, Joyce, Borges e Flaubert, o vigor do ensaio como um gênero tão nobre, e tão elevado, quanto a poesia e a ficção A Máquina de Ser, de João Gilberto Noll (Nova Fronteira): reunião de relatos breves e devastadores daquele que é hoje o mais radical, o mais corajoso, mas também o mais solitário dos ficcionistas brasileiros Poesia Reunida, de Orides Fontela (Cosac Naify): oportunidade valiosa para observar a magnífica poesia de Orides, uma poeta que nada fica a dever aos maiores nomes do século 20, como João Cabral e Carlos Drummond Arquivos do Mal-Estar e da Resistência (Civilização Brasileira): em que o psicanalista Joel Birman enfrenta com firmeza, sensibilidade e independência intelectual alguns dos temas mais dolorosos da vida contemporânea 47 Contos, de Juan Carlos Onetti (Companhia das Letras): os contos do autor, em que a objetividade se revela o instrumento mais eficaz para investigar o interior do homem, são a grande jóia daquele que foi o mestre de García Márquez, Vargas Llosa e Cortázar.
UBIRATAN BRASIL, JORNALISTA: A Máquina do Ser, de João Gilberto Noll (Nova Fronteira): conjunto de histórias atordoantes de pessoas que buscam a proteção das palavras ao mesmo tempo em que se dão conta de sua limitação As Raízes e o Labirinto da América Latina, de Silviano Santiago (Rocco): nova e instigante leitura do continente a partir de textos de Sérgio Buarque de Holanda e Octavio Paz O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras): seis ensaios em que o escritor argentino identifica várias modalidades de leitura na tradição literária ocidental Febeapá 1, 2 e 3, de Stanislaw Ponte Preta (Agir): importante recuperação de um humor peculiar, sem herdeiros legítimos Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares (Cosac Naify): com alienígenas e realidades paralelas, autor argentino aprofunda sua análise do comportamento humano.
MÁRIO SÉRGIO CONTI, JORNALISTA: Planeta Favela, de Mike Davis (Boitempo Editorial): contribui para tornar menos provinciana a discussão brasileira sobre os problemas das metrópoles. O trânsito caótico, o banditismo crescente, as enchentes devastadoras, a poluição irrefreável, a deterioração total da vida nas megacidades, ensina o urbanista americano, é um fenômeno de alcance mundial. Só no Terceiro Mundo, mais de 1 bilhão de pessoas vivem hoje em favelas. Elas emigraram de áreas rurais numa época em que as indústrias fechavam nas cidades - a poder dos planos de “estabilização” articulados por organismos globais, o FMI à frente - e passaram a viver em condições cada vez mais difíceis, sem empregos e sem casas. Cruzando dados e informações, Davis argumenta que, nos países pobres, globalização e favelização formam um nó que só a atividade política pode desatar. O excelente posfácio de Ermínia Maricato situa as particularidades nacionais no panorama internacional.
LUIZ RUFFATO, ESCRITOR E JORNALISTA: Obra Jornalística de Gabriel García Márquez (Record): são cinco volumes, quase 4 mil páginas, reunindo textos escritos entre 1948 e 1995, uma verdadeira aula de jornalismo, estilo e imaginação Poema Sujo, de Ferreira Gullar (José Olympio): edição comemorativa dos 30 anos de lançamento desse pilar da literatura brasileira Redes de Criação: Construindo a Obra de Arte, de Cecília Almeida Salles (Horizonte): criativo, original e claro, esse ensaio abre novas perspectivas para entendimento dos processos de criação e de análise da obra de arte Uma História do Romance de 30, de Luís Bueno (Edusp/Editora da Unicamp): em suas quase 700 páginas, o autor expõe novas possibilidades de abordagem desse complexo período da história da literatura brasileira Língua Geral: o aparecimento de uma editora dedicada exclusivamente à publicação de autores de língua portuguesa (brasileiros, portugueses e africanos) é uma aposta ousada e gratificante para o mercado editorial.
MOACIR AMÂNCIO, POETA: Macho não Ganha Flor, contos de Dalton Trevisan (Record): o escritor paranaense está melhor do que nunca. É Fellini com Carlos Zéfiro na era do crack O Cavalo Perdido e Outras Histórias, de Felisberto Hernández, tradução de Davi Arrigucci Jr. (Cosac Naify): a leitura desses contos do autor uruguaio pode mudar a visão que se tem da literatura hispano-americana; tradução brilhante Passos de Drummond, de Alcides Villaça (Cosac Naify): em matéria de poesia é seleção obrigatória; o crítico ilumina aspectos da obra de Drummond. Lição de leitura. Vista Parcial da Noite, de Luiz Ruffato (Record): o ficcionista tem uma contribuição original para a literatura brasileira, forte, corajosa Por Que Sou Gorda, Mamãe?, de Cíntia Moscovich (Record): a escritora gaúcha reafirma sua presença como uma das narradoras mais interessantes em exercício no País. E, maravilha, está longe de Clarice Lispector.
ELIAS THOMÉ SALIBA, HISTORIADOR: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, edição comemorativa de 70 anos (Companhia das Letras): o personalismo exagerado, a incapacidade de tratar a coisa pública de forma impessoal e uma ética de fundo emotivo são aspectos da atualidade brasileira ainda iluminados pelo clássico de Sérgio Buarque Febeapá 1, 2 e 3, de Stanislaw Ponte Preta (Agir): o humorismo não é apenas aquela farta prateleira nas livrarias, é também a derradeira instância a que recorremos para entender e explicar o Brasil. A reedição recoloca Stanislaw na galeria dos filósofos da graça nacional Getúlio Vargas, o Poder e o Sorriso, de Boris Fausto (Companhia das Letras): uma mistura bem balanceada entre as várias dimensões de um Vargas cheio de nuances e gradações, uma síntese notável e atual da história política do período Os Botões de Napoleão: As 17 Moléculas Que Mudaram a História, de Penny Le Couteur e Jay Burreson (Jorge Zahar): espantosas conexões revelam que a história da química é cheia de orgulho, cobiça, beligerância, dinheiro, ciúme, paixão, mas sobretudo sorte, muita sorte Futuro Passado. Contribuição a uma Semântica dos Tempos Históricos, de Reinhart Koselleck (Contraponto): oportuna tradução de uma das mais importantes reflexões teóricas sobre a História e seu horizonte de expectativas futuras e, como bônus, um provocante ensaio sobre os sonhos (ou pesadelos) de 300 pessoas na época do 3º Reich.
RICARDO LÍSIAS, ESCRITOR: Passagens, de Walter Benjamin (Editora UFMG): o principal lançamento do ano, ainda que a edição brasileira seja cara e o aparato crítico deixe muito a desejar Finalmente sai a tradução brasileira de um dos estudos mais impressionantes sobre a geografia urbana contemporânea, Planeta Favela, de Mike Davis: demonstra como as favelas surgiram e se tornaram dominantes nas grandes cidades. Um estudo aterrador Cultura e Resistência, de Edward Said (Ediouro): em um ano em que as tragédias bélicas imperaram, a lucidez de Said torna-se urgente; além disso, o livro demonstra a coragem de um intelectual livre, pena que seja tão pouco ouvido Novelas, de Samuel Beckett (Martins Fontes): que reúne três famosos contos do autor À Espera dos Bárbaros, de J.M. Coetzee (Companhia das Letras): romance vigoroso e extremamente antenado com o mundo contemporâneo, demonstra que Coetzee é de fato um dos principais ficcionistas vivos em todo mundo.
WILSON BUENO, ESCRITOR: Marca d’Água, de Joseph Brodsky (Cosac Naify): com a assinatura de um dos mais importantes poetas do século 20, Joseph Brodsky, Prêmio Nobel de Literatura/1987, trata-se de antológico relato de viagem a Veneza, freqüentada pelo escritor por 17 invernos. A Veneza de Brodsky é sobretudo a da solidão, a de uma serena solidão apaziguada pelo espetáculo das cúpulas de gelo, das abóbadas de prata e das gôndolas entrevistas em meio à “nebbia” profusa e hibernal. Uma pequena grande obra-prima Machado de Assis - Um Gênio Brasileiro, de Daniel Piza (Imprensa Oficial): autêntico “empreendimento” biográfico levado a efeito com paixão e notável meticulosidade. Lançado em meados de dezembro de 2005, o livro recebeu uma 2ª edição revista e corrigida pelo autor, em junho de 2006, consagrando-o, pois, como um dos grandes títulos do ano que ora termina. Também pela magnífica qualidade editorial do volume, numa prova de que iniciativas patrocinadas pelo Estado não precisam ser necessariamente acanhadas, o livro de Piza é em vários sentidos indispensável, seja pelo empenho visceral em sua complexa realização, seja pela fecunda empatia do biógrafo com seu biografado, sem o que o gênero, sabemos, não vinga O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras): tudo o que se escreveu sobre este “ensaio/insight” de Ricardo Piglia, ao longo de 2006, ainda é pouco para dar conta do extraordinário desvelamento do universo mágico da leitura empreendido por este que é, também, um dos maiores nomes da moderna ficção argentina. O amor ao texto, sua invenção e reinvenção pelo leitor. Uma sedutora e acossada “fenomenologia” da leitura. Obra-prima ensaística de raríssima fatura Conhecimento do Inferno, de António Lobo Antunes (Alfaguara): memórias pesadelares sobretudo da guerra colonial em Angola, tema recorrente do mais importante escritor português do século 20. As torções estilísticas, de um barroquismo exasperante e exasperado, fazem do novo livro de Lobo Antunes um dos altos momentos da melhor ficção produzida hoje em nosso insensato mundo Sinistros com Fogo, de David Means (Companhia das Letras): impactante reunião de peças curtas onde rigor e “ambiência” ficcional se complementam e interagem criando uma atmosfera digna de mestres do gênero, a exemplo de Paul Bowles ou mesmo Anton Chekhov. Autênticos “divertimentos” paranóides a autenticar ainda a exaustão de alguns clássicos cultores do conto no Brasil, presentes, de novo, em 2006, com suas maçantes repetições de fórmulas brutalistas - muito mais soporíferas do que excitantes.
JOÃO MARCOS COELHO, CRÍTICO MUSICAL: Em Busca da Mente Musical, de Beatriz Senoi Ilari (Editora UFPR): primeira publicação abrangente sobre psicologia cognitiva da música em português. Autores estrangeiros e brasileiros discutem questões como o desenvolvimento dos processos de audição e apreciação musical, funcionamento do cérebro na presença e ausência de estímulos sonoros e musicais, aprendizado, decodificação e leitura de partituras, composição e execução musicais. Jean-Christophe, de Romain Rolland (Globo): filhote genial do romance de formação de Goethe, este caudaloso romance de formação musical transporta Beethoven para as vésperas da 1ª Guerra Mundial. Leitura deliciosa, adequação musical rigorosa Um Toque de Limão, de Julian Barnes (Rocco): a música ocupa lugar central na ótima ficção do escritor inglês e é tema de dois dos contos, Vigilância (sobre o clima do concerto) e O Silêncio (uma gema que dá conta do mutismo de décadas do compositor finlandês Jean Sibelius) Beethoven: Cartas, Diários,Cadernos de Conversação, Reminiscências de Contemporâneos (Veredas): nada como o artista em primeira mão. A saborosa seleta dos 1.500 documentos do acervo de Beethoven dá um retrato íntimo e preciso do compositor Escritos de Artistas Anos 60/70, de Glória Ferreira e Cecília Cotrim (Zahar): 51 manifestos, cartas, entrevistas e ensaios críticos precedidos de comentários e breves perfis dos artistas. Essencial para se entender as artes contemporâneas, aí incluída a música, por meio do excelente ensaio O Futuro da Música, de John Cage.
FABRÍCIO CARPINEJAR, POETA: A Máquina do Ser, de João Gilberto Noll (Nova Fronteira): contos com a atmosfera inconfundível do autor, microrromances desesperados, dispersivos e com uma fluência própria do transe e da revelação. Situações absurdamente reais. Para ler com a janela aberta Volume do Silêncio, de João Carrascoza (Cosac Naify): reunião de parte dos contos do escritor, que explora as lacunas das relações familiares, as promessas e as dívidas, o que ficou por dizer. Sutileza e lirismo Mãos de Cavalo, de Daniel Galera (Companhia das Letras): em trama ambientada em Porto Alegre, o escritor conta a vida de um médico alternando três tempos e rejuvenesce o romance de formação Um Homem Chamado Maria, de Joaquim Ferreira dos Santos (Objetiva): chope marcado com a história do cronista Antonio Maria, que incendiou a boêmia carioca da segunda metade do século 20 e seduziu o jornalismo a namorar a literatura Por Que Sou Gorda, Mamãe?, de Cíntia Moscovich (Record): tinha tudo para ser um dramalhão, filha descobre a influência da figura materna em sua gula e dificuldade de emagrecer e questiona a educação fria, indiferente e perdulária que recebeu. Mas não vira uma tragédia kafkiana pelas anedotas familiares, serenidade estilística e equilíbrio psicológico.
IVO BARROSO, POETA E TRADUTOR: Indícios Flutuantes, de Marina Tsvetáieva, tradução de Aurora Bernardini (Martins Fontes); e Os Poemas Suspensos, de vários autores árabes, tradução de Alberto Mussa(Record): duas traduções de poemas, feitas ambas das línguas originais, e que primam pela alta qualidade e amorosa dedicação com que foram feitas. Tsvetáieva, importante poeta russa da primeira metade do séc. 20, pouco divulgada no Brasil, recebe aqui sua antologia consagratória; e os poetas-beduínos árabes, com seus poemas narrativos, de grande beleza e plasticidade, como que se inauguram no território de nossa língua. Um Cavalo no Cemitério de Deus, de Jorge Cardoso (Atrito Art Editorial): exilado voluntário nas geleiras suecas, pelo ineditismo de sua prosa alucinada A Hora dos Náufragos, de Pedro Maciel (Bertrand): romance minimalista tão diverso das baboseiras rosiano-pornográficas que se tornaram o grande filão da moderna “literatura” brasileira O Movimento Pendular (Record): livro de classificação difícil (contos, romance, demonstrações científicas?) em que o escritor Alberto Mussa estuda todas as possibilidades do triângulo amoroso, balançando-se no trapézio de sua erudição e inigualável inventiva.
NELSON DE OLIVEIRA, ESCRITOR: Zaratempô!, de Evandro Affonso Ferreira (Editora 34): a sofisticada irreverência de Evandro, mineiro de Araxá, é descendente legítima da não menos sofisticada irreverência de outro mineiro perturbador, Campos de Carvalho. Esse é seu quarto romance, inventivo em todos os sentidos Cantos Negreiros, de Marcelino Freire (Record): a coletânea de contos esquadrinha, com ironia e bom humor, a questão do preconceito racial, a do homossexualismo e a do conflito de classes. Marcelino se inspirou na obra de autores como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Jorge de Lima Ou o Poema Contínuo, de Herberto Helder (Girafa): poeta da fragmentação alquímica e do gozo xamânico, Herberto Helder não é muito conhecido no Brasil, talvez por ser demasiado reservado e avesso a badalações. Sua literatura acolhe as instabilidades do corpo, conseguindo assim tocar em diversos pontos a dimensão do sagrado Códice d’Incríveis Objetos & Histórias de Lebensraum, de Paulo Sandrini (Travessa dos Editores): narrativas que filtram da realidade as estranhas situações provocadas pela causalidade fantástica. Nelas, os objetos ganham certa consciência maligna enquanto as pessoas se dissolvem na inconsciência das relações automatizadas. Paulo é um dos autores mais inquietantes dessa nova safra de contistas Meu Ensino, de Jacques Lacan (Jorge Zahar): a coletânea reúne três conferências pronunciadas no final da década de 60, todas elas sobre o renovador método psicanalítico do autor. Para os que ainda não leram Lacan, ela pode ser o primeiro passo em direção à obra desse pensador muitas vezes hermético e impenetrável.
LEDA TENÓRIO DA MOTTA, FILÓSOFA: Passagens, de Walter Benjamin: a tradução para o português das mais de mil páginas do inacabado, inacabável e lendário volume que Benjamin queria dedicar a Paris é um dos acontecimentos editoriais do ano. Trata-se de um trabalho de equipe, com aparato crítico impecável, cuja tecnicidade não afugentará quem queira apenas se deliciar com os quadros parisienses e a alma baudelairiana do filósofo Poemas da Recusa, de Augusto de Campos (Perspectiva): o volume aumenta o leque dos malditos que já conhecíamos com operações convergentes de tradução, criação e crítica, típicas da firma de poesia dos “irmãos siamesmos”. Mas, como Augusto de Campos se demora, neste novo álbum, na apresentação de seus poetas, temos aqui algo mais: pérolas do comentário literário que é feito a distância do laboratório da universidade Discretas Esperanças, de Olgária Matos (Nova Alexandria): o título inesperado já depõe sobre o que distingue a autora na geração a que pertence: uma voz própria, um estilo contundente, uma análise política inquieta, que vai aos objetos vivos, por vezes dos mais brasileiros, sem defesas filosóficas prévias Arte, Dor, de João Frayze (Ateliê Editorial): dando plena conseqüência à verificação de Freud no sentido de que os poetas e os artistas precederam os psicanalistas, João Frayze renova aqui, numa reflexão de fôlego, o tema clássico das relações entre a vida e a arte. Percorrendo diferentes casos eruditos de figura, vai ao ponto extremo desse nexo, mostrando que o que vincula as artes, por antecipação, ao campo do inconsciente, é a própria experiência da dor Desconstruções e Contextos Nacionais, de Alcides Cardoso dos Santos, Fabio Akcelrud Durão e Maria das Graças Villa da Silva (7 Letras): a coletânea reúne ensaios que se atrevem a enfrentar idéias feitas sobre identidades nacionais vigentes em domínios do pensamento não apenas brasileiro. Surgem assim, à luz das lições antidogmáticas de Derrida, tentativas de leitura desconstrutiva em torno de interpretações instituídas do Brasil que, longe de ofender, só deveriam ser vistas como enriquecedoras.
REGINA SHÖPKE, FILÓSOFA: Jaulas Vazias, de Tom Regan (Lugano): expõe, de modo contundente, a questão da escravidão animal, fazendo-nos refletir sobre a verdadeira face do homem: a tirania (expressa na sua relação com as outras espécies e com o próprio homem) A Ilha Deserta, de Gilles Deleuze (Iluminuras): pela própria pluralidade dos temas abordados, essa coletânea de textos das duas primeiras décadas da carreira do autor nos permite mergulhar ainda mais no universo nômade dos conceitos, afetos e desafetos do grande pensador da “diferença” Duração e Simultaneidade, de Henri Bergson (Martins Fontes): é a crítica corajosa do filósofo francês à teoria da relatividade de Einstein. Ele rejeita a idéia do “espaço-tempo” enquanto defende a existência do tempo como fluxo independente (porém, ordenador) da matéria O Poder Psiquiátrico, de Michel Foucault (Martins Fontes): abordando a questão da “produção” da loucura como doença mental, no século 19, o livro revê certas posições do próprio pensador e traz uma reflexão profunda sobre a tirania do poder psiquiátrico, com suas práticas coercivas e suas “prisões” hospitalares Os Melhores Contos Fantásticos, organizado por Flávio Moreira da Costa (Nova Fronteira): a relação dos autores fala por si: Hoffmann, Borges, Poe, Oscar Wilde, Baudelaire, Kafka, Julio Cortázar, Machado de Assis e muitos outros.
ROSANE PAVAM, JORNALISTA: Para Entender o Poder, de Noam Chomsky (Bertrand): ao responder questões de suas platéias, Chomsky exibe veia de historiador e analisa dados sobre fatos incômodos, como a aproximação americana dos nazistas depois do fim da Segunda Guerra Buda, de Osamu Tezuka (Conrad): os 14 livros em que o autor apresenta seus fatos para a história de Buda são grande literatura com mangás. Humor e poesia dançam um balé com rostos e paisagens do passado e do presente Preso por Trocadilho, de Paula Ester Janovitch (Alameda): um livro aberto, em que a autora não interpreta a pequena imprensa paulistana da passagem ao século 20, antes a mostra em sua riqueza, esquecida pelos estudos literários conterrâneos Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves (Record): romance histórico sobre a escravidão pelos olhos de Kehinde, negra africana vendida ao Brasil. As origens dos negros, a solidariedade entre eles na terra hostil, a beleza de ser apresentado a tudo isso em uma ficção Na Pior em Paris e Londres, de George Orwell (Companhia das Letras): o romancista é aqui o extraordinário repórter que se veste, come mal e desabriga-se nas duas cidades européias no início do século passado. Se ele ao menos pudesse dormir nos bancos do Hyde Park!
ANTONIO GONÇALVES FILHO, JORNALISTA: O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras): especialmente pelo ensaio que dá título ao livro, que mostra como um homem de ação, Che Guevara, poderia ter trocado o fuzil pela reflexão e os livros que tanto amou O Último Leitor, de David Toscana (Casa da Palavra): o melhor livro do mexicano até El Ejercito Iluminado, outra alegoria desse novo mestre do “niilismo mágico”, que teve a má sorte de lançar seu livro com o mesmo título do de Piglia Passagens, de Walter Benjamin (UFMG/Imprensa Oficial): por ser uma obra fundamental do filósofo sobre as relações incestuosas entre arquitetura e poder econômico, na França e no resto do mundo A Transfiguração do Lugar-Comum, de Arthur C. Danto (Cosac Naify): ensaio dos anos 1970 que continua atual por mostrar como a autoconsciência da arte pode ser perigosa e conduzi-la ao fim de sua história A Máquina do Ser, de João Gilberto Noll (Nova Fronteira): em raras ocasiões a literatura brasileira reconheceu sua impotência diante da linguagem, incapaz de traduzir o drama de modernos desesperados.
OSCAR PILAGALLO, JORNALISTA: O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras) O Banqueiro do Sertão, de Jorge Caldeira (Mameluco) Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa (Alfaguara) O Exército de Cavalaria, de Isaac Bábel (Cosac Naify) A Biblioteca à Noite, de Alberto Manguel (Companhia das letras).
SELMA CAETANO, CURADORA DO PRÊMIO PORTUGAL TELECOM: Memória de Elefante, de Lobo Antunes (Objetiva): só agora é editado no Brasil o romance de 1979 em que médico psiquiatra volta a Portugal depois de uma dolorosa separação da família e caminha pelas ruas de Lisboa no melhor estilo Cesário Verde: “Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer” Obra Poética Integral de Cesário Verde, organização de Ricardo Daunt (Landy): edição criteriosa que apresenta a produção poética, a correspondência com diversos interlocutores e uma cronologia, alinhando a obra e a vida do poeta Por Que Sou Gorda, Mamãe?, de Cíntia Moscovich (Record): se evocamos Carta ao Pai, não vamos encontrar o tom duro e triste de Kafka nessa ‘Carta à mãe’, de Cintia Moscovich. A autora percorre a própria história com ironia, tentando driblar o excesso de comoção pela vida que lhe deu 20 quilos a mais, uma mãe judia e uma família que parece em permanente diáspora Vista Parcial da Noite, de Luiz Ruffato (Record): terceiro volume do projeto literário Inferno Provisório, uma reflexão sobre a formação do proletariado brasileiro, o livro, também ambientado no interior de Minas Gerais, é um romance de extrema violência, marcado pela degradação de seus personagens. Leitura cinza, para quem não tem medo de encarar o quadro pungente da realidade brasileira O Último Leitor, de Davi Toscana (Editora): num pequeno e inóspito povoado onde ninguém lê, o bibliotecário Lúcio não diferencia literatura e vida e tenta desvendar o desaparecimento de uma menina de 13 anos nas páginas de um romance. Com muito humor, Toscana prova que nunca se lê impunemente.
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