Paulo Coelho: afinal, ele escreve bem?
A marca do Coelho
O maior fenômeno editorial do país mostra que o casamento entre texto de qualidade e capacidade narrativa nem sempre é essencial para tornar um autor bem-sucedido .
artigo de Ronaldo Albanese
Falar da obra de Paulo Coelho do ponto de vista dos especialistas e da crítica é sinônimo de polêmica. Em raras vezes há coincidência de opinião a respeito de seus livros. Especialmente quando o olhar se volta a uma análise objetiva e mais criteriosa das possíveis qualidades do escritor carioca e de sua eventual contribuição para a literatura e a língua portuguesa.
Traduzida em mais de 60 idiomas, sua obra vendeu mais de 65 milhões de exemplares no mundo. Com O Alquimista, que vai virar filme em Hollywood, chegou ao topo dos mais vendidos em 18 países. Desde 2002 é membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira número 21, que foi de Roberto Campos.
A entrada na ABL é considerada por muitos um sinal de que o escritor quer fazer uma travessia mais ampla que a de Santiago de Compostela: a de “mago” a “escritor”, como aponta Richard Romancini, das Faculdades Integradas Rio Branco, que em 2002 defendeu na USP mestrado sobre o autor de Diário de um Mago.
Até anos atrás, Coelho não parecia desconfortável em ver-se vinculado a dotes que enfatizavam o esoterismo de seus livros - no início da carreira, por exemplo, fizeram-lhe fama boatos sobre a suposta capacidade de produzir ventos e, mesmo na Copa, chegou a ser consultado para adivinhar o destino da seleção brasileira, convite que declinou.
Se não é página virada, esse toque de mágico pop começa a conviver com a mudança progressiva de imagem, após a consagração internacional. Está em marcha um sincero esforço do autor para identificar-se como profissional do mercado editorial, em torno do qual gravitam produtos e imagens relacionados ao ofício da escrita.
A estratégia envolveu desde a entrada na ABL a produções atípicas, como um livro infantil com Mauricio de Sousa e uma consistente carta-manifesto anti-Bush, publicada nos jornais do mundo há três anos. Essa marca se fez presente também em seus livros. Veronika Decide Morrer (1998), por exemplo, atenua o esoterismo e aborda problemas sociais e políticos inexistentes em livros anteriores.
Mas as perguntas que até hoje não calam são: afinal, Paulo Coelho escreve bem? Se o sucesso não é sinal de qualidade, o que o torna um autor bom ou fraco? Se livros de auto-ajuda há aos quilos, o que o distingue do feijão-com-arroz da para literatura? Qual, enfim, o segredo “retórico” de Paulo Coelho?
Narrar x escrever
Paulo Coelho é um ótimo narrador cujo sucesso se deve mais à capacidade de suprir necessidades de um leitor que busca mensagens positivas para a vida do que à produção de alta literatura.
As respostas não são tão simples. Enquanto fazia a pesquisa de campo para sua dissertação sobre a leitura de Paulo Coelho por usuários de uma biblioteca pública, Romancini observou que o leitor do mago teria atualmente um interesse menor pelas questões “esotéricas” do que pelas histórias narradas pelo autor. Se alguns eram mais atraídos por elementos de auto-ajuda que fizeram a fama de Coelho nos anos 90, outros eram fisgados pela sua capacidade narrativa. A articulação central é que sua leitura propicia “prazer com saber”.
Sem preconceitos
É nesse sentido que se pode entender a declaração do cartunista e escritor Ziraldo, em Língua 6 (abril), segundo a qual Coelho é um exemplo de que escrever bem (dominar e burilar a linguagem) não teria necessariamente relação com a inventividade narrativa (a criação de histórias).
- Pode-se fazer um grande romance escrevendo feio. Paulo Coelho escreve mal feito poucos, mas é um narrador extraordinário - declarou.
O fato de que Coelho colecione elogios do tipo é um enigma para os especialistas. Ele seria um exemplo de eficiência de comunicação imediata com um enorme número de pessoas, qualidade que o fez construir uma obra bem acabada no contexto da cultura de massa.
Nesse sentido, sua produção cumpre um papel específico, preenchendo lacunas e respondendo questões ao redor do planeta. Não se pode esquecer que escrever para muitos também significa uma inevitável perda de profundidade de conteúdos.
- Mas não devemos ter preconceitos quanto a isso. Há espaço para todos e isso é bom - afirma Antonio Gonçalves Filho, um dos mais respeitados críticos de arte, hoje no jornal O Estado de S. Paulo.
Para ele, Paulo Coelho é um ótimo narrador cujo sucesso se deve mais à capacidade de suprir necessidades de um tipo de leitor em busca de mensagens positivas para a vida do que à produção de alta literatura.
Sem densidade
O crítico ressalta que, se for feita uma análise acurada dos textos de Coelho, não será possível considerá-lo bom escritor.
- São fluentes, de fácil compreensão, mas na maioria falta, por exemplo, densidade psicológica nos personagens.
Para Gonçalves, seria também leviano comparar Coelho a monstros sagrados como Machado de Assis, Dostoievski ou Joyce, que fizeram refletir e inovaram, ao construir uma linguagem literária. É improvável que o autor de O Zahir, de 2005, seja lembrado no futuro como alguém que revolucionou de alguma forma a linguagem.
- Paulo Coelho produz, digamos, uma literatura “mediana”, sem qualquer conotação pejorativa do termo.
Os livros do “mago” podem ter importância sociológica e até pedagógica para o leitor comum, concorda Susana Kampff Lages, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Mas a pesquisadora de teoria literária, de estudos de tradução e literatura comparada, com foco em autores de língua portuguesa e alemã, cita um trecho do escritor alemão Walter Benjamin para explicar o que pensa a respeito.
Desordem costumeira
Benjamin escreveu o artigo “Como se Explicam os Livros de Grande Sucesso? em que critica Ervas e Ervas Daninhas - Pequeno Manual Prático de Plantas Medicinais, de Johann Künzle, um pastor curandeiro, que em 1930 vendeu mais do que a Bíblia na Suíça, com tiragens de 140 mil exemplares:
“Uma pitada de ‘deísmo’, uma pitada da teoria dos íons - uma mistura tão autêntica e perfeita é o conteúdo deste livro; seus capitulozinhos são de ervas e de cenouras. É só lembrar daqueles calendários do interior, almanaques e outros impressos do tipo, que seremos obrigados a aceitar o fato de que o povo adora essa desordem em seus livros. Por quê? Uma coisa é certa: a desordem costumeira é aconchegante, enquanto a ordem estranha dá uma impressão fria, distanciada.”
Na opinião da professora, um texto literário deve ter o poder de produzir questionamentos sobre o mundo, o indivíduo, a história, a sociedade e a própria literatura. Para ela, a literatura não traz respostas, não é apaziguadora, ao contrário, provoca novas perguntas.
- Aí é que o tipo de texto do Paulo Coelho não se enquadra, porque pretende solucionar questões com auto-ajuda, ficando no plano que Benjamim chamou de “desordem costumeira, familiar” - afirma.
Suzana não o vê como um escritor de elaboração estética de material verbal - da língua ou das línguas. Uma obra que tem a pretensão de ser literária teria de apresentar elaboração de linguagem aliada a uma força imaginativa incomum.
Nem bom, nem ruim
Lúcia Helena, professora de Teoria da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), titular de Literatura Brasileira da UFF, é enfática ao afirmar que Paulo Coelho não faz literatura boa ou ruim.
- Não sei se ele escreve bem. Mesmo porque, a essa altura, terá diversos copidesques [redatores] a serviço. Num mundo de analfabetos, ele escreve com correção técnica.
Ela entende que o texto do autor atende a um padrão, deve ser lido com facilidade, leveza. Para ela, Coelho seria um fenômeno da época, caracterizada pelo esvaziamento da experiência em prol da vivência de choque, introduzida pelo capitalismo. Sua obra seria mais uma conseqüência do preço alto que se paga, social e individualmente, por um conceito de evolução centrado na idéia de progresso e de tecnologia.
- O mundo se esvaziou de sentido pleno e a existência, que em si não tem sentido próprio, carecendo de que a dotemos de significação, mostra-se cada vez mais precária - lamenta.
A literatura que, no século 19, desempenhou um papel fundamental na vida das sociedades, teria perdido, hoje, essa centralidade. Daí surgirem os bem-sucedidos manuais de auto-ajuda, sob o invólucro da reflexão ao alcance de todos.
- Seus textos propalam esse clima de “afetividade”.
Direto ao coração
Há pesquisadores, em contrapartida, que defendem a obra do autor, ressaltando o poder que ele tem de “falar direto ao coração”. É o caso de Maria Ivoneti Busnardo Ramadan, titular de Língua Portuguesa da Faculdade Cásper Líbero, que em 2003 defendeu na USP doutorado com o título “Narração e Panacéia: O Poder Educativo do Mito/ Uma Análise da Obra de Paulo Coelho”. Ela não vê problema no fato de as histórias coelhianas convocarem as ressonâncias afetivas do leitor.
- As narrativas dele, se pouco valem do ponto de vista estético para a crítica oficial de sua obra, valem mais pelo que podem proporcionar ao leitor.
Suas narrativas seriam, assim, pulsionais, capazes de despertar a “narrativa interior” que cada um tem, pouco importando que não tenham profundidade, sejam desprovidas de torneios verbais e não atualizem as virtualidades estéticas da língua.
A “esteticidade” aqui, segundo a professora, viria da fruição proporcionada a quem lê os seus textos, da percepção do agradável e do prazeroso que provocam e dos laços afetivos tecidos entre os leitores. Viria do congraçamento entre eles, de uma sensibilidade comum, antropológica, condição para que se estabeleça uma sintonia entre tantos dispersos por muitos lugares diferentes do mundo.
Tradução salvadora
Como se sabe, as histórias de Coelho atravessam fronteiras e convocam diferentes pessoas a compartilhar as mesmas paixões, identificando-se com o pastor Santiago, de O Alquimista, vivendo a saga de Elias, em O Monte Cinco, ou encenando a angústia de Veronika, em Veronika Decide Morrer.
Ivoneti diz que o poder desse tipo narrativo vem da técnica adotada em quase todo Paulo Coelho, um modelo que funciona como matriz de todos os enredos (leia quadro abaixo). Algo como Mil e Uma Noites, cujas histórias são escritas a partir de um conto-moldura no qual vão sendo inseridas outras histórias, numa enfiada interminável de narrativas.
- Evidentemente, o narrador das histórias dele não tem a densidade de Sherazade, criadora de uma máquina narrativa, disposta a enfrentar a morte para salvar não só a si mesma, mas a própria narração.
Em Coelho, o narrador se compromete com um programa narrativo linear. Há sempre uma personagem errante, disposta a trilhar um caminho e a enfrentar desafios. É uma viagem ao fim da qual a personagem acaba por superar o estado inicial em que se encontrava. Essa viagem iniciática constitui o grande atrativo para o leitor.
- Em geral, trata-se de pessoas simples e, como tal, não buscam problematizar a leitura, tornar complexos os sentidos da mensagem, estão interessadas em ter orientação de vida.
A fama dos livros de Coelho viria da adoção dessa técnica narrativa e de uma linguagem simples, sem rebuscamento estético, de fácil assimilação e tradução para outras línguas. Algumas traduções, diz a pesquisadora, chegam a ser até mais trabalhadas lingüisticamente que a obra original brasileira. Por exemplo, a edição francesa de O Alquimista é superior ao original, esteticamente falando.
- Só os menos avisados atribuiriam o respeito e a popularidade do autor no mundo só a essa estrutura bem montada.
Para ela, dizer que Paulo Coelho é só um fenômeno de massa, um expoente máximo da indústria cultural, é desconsiderar as especificidades daquilo que é o seu maior patrimônio: o leitor.
- Um público que gostaria de voltar aos contos maravilhosos e acaba tendo de digerir filmes baratos - diz Andréa Lombardi, do Departamento de Letras da UFRJ, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Segundo ele, desde sempre a cultura produziu fenômenos como Paulo Coelho.
- Alexandre Dumas pai não escrevia também bobagens para jornais e revistas? Quantos outros iniciaram assim?
Maldição escolar
Na maioria dos casos, tipos assim foram esquecidos. Mesmo quem se opõe à carreira de Coelho duvida da maestria do imortal em textos de cunho místico e pretensamente profundos. Muitos são seduzidos pelo apelo de ver um autor divulgar tanto o nome do país - embora não se identifique em suas obras temas e paisagens “nacionais”.
Quando fazia sua dissertação, Richard Romancini ouviu uma colega perguntar-lhe o que achava dos professores que ficavam escandalizados com o sucesso do autor entre estudantes.
- Um tanto jocosamente, um tanto à luz dos dados que então coletava, disse que a solução desse “problema” era simples: bastava que Paulo Coelho fosse adotado nos currículos e em pouco tempo os estudantes não mais o leriam.
Para ele, o sucesso de Paulo Coelho coloca em primeiro plano o fato de a escola não formar leitores. A experiência literária escolar seria, de maneira geral, tão pouco marcante (”quando não caracterizada pelo desprazer”) que a vitória de Coelho, por “dábliu-ó”, se revela antes o signo de uma ausência, que é muito mais nossa do que dele.
Um Coelho com cartola
características retóricas da literatura do escritor mais bem-sucedido do país
O historiador Mário Maestri, da pós-graduação da UPF (RS), escreveu em “Por que Paulo Coelho Teve Sucesso” (AGE, 2004) que a para-literatura é a narrativa em prosa que tem estrutura e elementos gerais da ficção, mas não cumpre algo vital: registrar conteúdos essenciais dos fenômenos relatados. Se a literatura explora as tensões de diferentes experiências humanas, a paraliteratura reapresentaria os mesmos conteúdos sob nova roupagem. Para um público não habituado, sem tempo, treino ou disposição à leitura ficcional densa, o estilo de Coelho tem, para Maestri as seguintes características:
Eficiência jornalística
Tendo militado no jornalismo, no teatro e na música antes de virar romancista esotérico, seu texto reproduziria as orientações do moderno jornalismo: frases, parágrafos e capítulos curtos, linguagem simples, em ordem direta.
Recursos dramáticos
Poucos personagens e trama desenvolvida sem ruptura de tempo, avançando de forma linear, o que não confunde o leitor desabituado à leitura complexa. Coelho conta sempre uma história simples, às vezes simplória, interrompida por outras pequenas narrativas também simples, como habitual nas telenovelas. Os personagens buscam uma espada, um tesouro, os anjos, o amor etc.
Atualiza o esoterismo
Coelho renovou a natureza de feiticeiros e feiticeiras, habitualmente retratados como transgressores da ordem social e religiosa da Idade Média, velhos decrépitos à margem da sociedade. Seus bruxos e bruxas vivem situações contemporâneas e estão integrados à sociedade de consumo. São gente comum, bem-sucedida, com carros de luxo e bom emprego.
Narrativa “quietista”
O ideário desenvolvido por Paulo Coelho se afina a um público ainda encantado pela retórica neoliberal, mas angustiado e desmoralizado pelo mundo sem perspectivas. Sua visão individualista do mundo nega a razão e a ação coletiva como possibilidades de transformação. Em seu universo, o amor constrói, os justos são redimidos, ricos e pobres se equivalem, o trabalho será recompensado, o esforço e a fé em si mesmo a tudo conquistam, a beleza interior é mais forte que a exterior e podemos esperar que o universo conspire a nosso favor.
FONTE:
*REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA - Edição 10 - Editora Segmento
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Jonas disse,
16 de Dezembro de 2006 @ 13:31
Considero Paulo Coelho um excelente marqueteiro, li apenas um livro dele e desisti.