O cigarro de palha e o mineiro

Alberto Deodato

caipira
 Caipira Picando Fumo
 Almeida Junior, Pinacoteca - SP

O cigarro de palha é genuinamente mineiro. O fumo pode ser goiano. A palha, gaúcha. Mas o cigarro é mineiro. Não é que os filhos dos outros estados não o fumem. O nortista, o sulista, o paulista, todos o fumam. Mas fumador mesmo é o mineiro. os que o fumam, de outros estados, o fazem por vários motivos. Vício. Prazer. Gosto. Cheiro. Fumam e jogam fora como um outro cigarro qualquer. Mas, ao mineiro, o cigarro de palha tem outro sentido e outra profundidade. Não é apenas um pito. O cigarro de palha lhe compõe a personalidade. É um adorno. E, como adorno, enfia a palha no bolso do peito do paletó, para fora, como se fora uma ponta de lenço. É um passatempo. E fica, horas e horas, a catar, no paiol, as palhas mais sedosas da última colheita. É um livro. E senta no banco da varanda fresca, pé espalhado, a pentear, com requintes, as palhas longas e louras, do molho, desgarrado do sabugo. Corta a palha em tamanhos iguais. Empilha-os. Enlaça-os, como se fora artigo de embalagem de luxo. Faz aquilo “maginando”. Pensando. Planejando. Longe do mundo, como quem, a cada página de livro filosófico, estivesse tirando conclusões. É uma manifestação de bom-gosto. E, na escolha da palha, do fumo cheiroso, do canivete Roger, da carteira de borracha, que conserva mais fresco o fumo, põe o amor à estética, à vocação para o bonito. O cigarro de palha, para o mineiro, é menos para fumar do que a marca da personalidade, condição da própria existência. Deu-lhe o cigarro de palha a aguda compreensão da vida, porque lhe dá tempo para pensar. Enquanto tira a palha, alisa-a, lambe-a, pica o fumo e enrola o cigarro, passa-lhe a raiva impetuosa. Não faz nada precipitadamente. Nunca responde à queima-roupa. Faz primeiro o seu cigarro para responder. O cigarro lhe dá tempo ao tempo. Não tira, nunca, conclusões apressadas. Anuncia as premissas. Tira o fumo e pica, olhando o interlocutor. Desfia o fumo nas palmas das mãos. Vê a palha. Alisa-a. Acarinha-a. Quando fecha o canivete, tira a binga. Só quando chupa a primeira baforada, com a fumaça, é que conclui a oração. Isso quando não finge que não compreendeu a pergunta. Então, começa tudo de novo.

O cigarro de palha é o melhor instrumento de política do mineiro. Arranja eleitor com presente de fumo:

— Isprimenta esse. É goiano.

E depois de uma pausa:

— Se gostar, tem mais.

Quando não quer falar, mas só escutar, tira o rolo de fumo e a palha. E vai indagando, parecendo que não está escutando, porque os olhos só se fixam no cigarro que está fazendo. Parece distraído. Não nega nem afirma nada. Se o companheiro insiste, ele vai respingando:

— Pois é, né?

E, depois de escutar bem, joga fora o cigarro que não fumou.

Foi o cigarro de palha que deu ao mineiro essa admirável astúcia e essa invencível sabedoria política.

FONTE: http://www.jangadabrasil.com.br/revista/julho80/pa80007a.asp

Enviar por e-mail. Hits para esta publicação: 13601.

1 Comentário »

  1. violero disse,

    1 de Janeiro de 2010 @ 18:33

    aff cara, o texto fico bom, mas eu discordo, essa cultura sua q vc so dexa pros mineiros, é de toda cultura brasileira interiorana, dos sertões, tanto em minas, goias, são paulo, paraná, pode contar tambem mato grosso e mato grosso do sul, e até o rio grande do sul…

RSS para comentários nesta publicação · URI para link desta publicação:

Deixe um Comentário