Arquivo de LITERATURA

Quem plantou essa muda?

DESAPOSENTAR
(Domingos Pellegrini)

Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta.
Amarrou a muda na estaca e se afastou como pra olhar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.
- Ah… O senhor quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura. Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí. Olha que beleza, já está toda enfolhada. De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe…

Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado.
Foi podando e explicando:
- Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria… Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra Leia o restante deste artigo »

Comentários

Lévi-Strauss: paixão pelo Brasil

Crédito: Eric Brochu/divulgação CosacNaity

Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, em 28 de novembro de 1908. Estudou Filosofia e Direito em Paris, mas ganhou reconhecimento mundial com seus estudos etnológicos. É considerado o criador da Antropologia Estrutural e um dos maiores pensadores do século 20. Lévi-Strauss veio ao Brasil pela primeira vez em 1935,
integrando a missão francesa que participou da criação da Universidade de São Paulo. Tinha 26 anos quando ocupou a cadeira de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP. Entre 1935 e 1939, viajou pelo país e desenvolveu pesquisas etnológicas com índios kadiwéus e nambikwara. A experiência brasileira foi descrita, anos mais tarde, em 1955, no livro Tristes trópicos, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Com a ocupação da França por tropas alemãs durante a Segunda Guerra, o etnólogo instalou-se nos Estados Unidos e deu aulas na New School for Social Research, em Nova York. Ao retornar à França, Lévi-Strauss assumiu a cadeira de Antropologia no Collège de France, em Paris. Entre suas obras: As estruturas elementares do parentesco, O pensamento selvagem, Antropologia estrutural e As mitológicas, obra dedicada ao estudo dos mitos de povos indígenas americanos, publicada no Brasil pela CosacNaify. Desde 1973, Lévi-Strauss é membro da Academia Francesa de Letras.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva concedida por Lévi-Strauss ao antropólogo brasileiro Marcelo Fiorini, em novembro de 2005, um dia depois de seu aniversário, em seu escritório no Collège de France. A entrevista fará parte de um livro que o pesquisador brasileiro publicará este ano pela Survival International dentro de uma coleção reservada a temas relacionados a povos índigenas do mundo. O objetivo central é chamar a atenção do público brasileiro e do mundo para a situação dos povos indígenas do Brasil e, em particular, dos nambikwara, grupo do qual Lévi-Strauss ainda guarda as melhores lembranças de sua carreira como etnólogo.

Os nambikwara têm hoje várias de suas aldeias ameaçadas: no rio Sararé, por uma indústria de mineração que tenta impedir a demarcação de uma área pleiteada pelo grupo; no Vale do Guaporé, pela destruição contínua das florestas e pela indústria madeireira e, na aldeia Wakalitesu, onde Lévi-Strauss morou, pela penetração do plantio da soja nas áreas indígenas do Cerrado.

Marcelo Fiorini - Que recordações o senhor guarda do Brasil?
Claude Lévi-Strauss - Eu guardo as melhores lembranças de minha estada em São Paulo e entre os índios. A cidade de São Paulo, onde eu vivi, porém, e mesmo a que revi em 1985, quando retornei ao Brasil pela única vez, para acompanhar o presidente francês que fazia uma Leia o restante deste artigo »

Comentários

Ciência x religião

Dogmatismo científico é tão inflexível quanto a religião

A rigidez da maior parte dos cientistas para lidar com assuntos desconhecidos é um dos alvos da crítica do físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor de uma das mais conceituadas faculdades norte-americanas, o Dartmouth College, no pequeno Estado de New Hampshire. Seu último livro, ‘O Fim da Terra e do Céu’, lançado no ano passado, foi o vencedor do Prêmio Jabuti 2002 e acaba de ser publicado nos Estados Unidos com o título ‘The Prophet and the Astronomer’ e já vem despertando repercussões entre os críticos.

Nesta entrevista realizada em São Paulo, Gleiser - que é autor do best seller ‘A Dança do Universo’, que lhe valeu também o Prêmio Jabuti 1998 - falou também sobre outros temas polêmicos, como o criacionismo e o crescimento da mentalidade extremista e apocalíptica.

 
Galileu - Seu livro ‘O Fim da Terra e do Céu’ foi escrito antes dos ataques terroristas de 2001. Mas esses acontecimentos têm sido abordados em suas palestras sobre a obra. Por quê?

Gleiser - Eu tenho puxado bastante para esse lado, principalmente nos Estados Unidos, pois nesse livro eu falo muito sobre as seitas apocalípticas, o extremismo religioso e como as pessoas podem matar ou se matar pela fé. Para muitos extremistas, o martírio faz parte da salvação, Leia o restante deste artigo »

Comentários

Sotaque mineiro

Sotaque mineiro: é ilegal, imoral ou engorda?
Por Felipe Peixoto Braga Netto

    ‘’Minas não é palavra montanhosa.
    É palavra abissal. Minas é dentro
    E fundo”
    Carlos Drummond de Andrade

Gente, simplificar é um pecado. Se a vida não fosse tão corrida, se não tivesse tanta conta para pagar, tantos processos — oh sina — para analisar, eu fundaria um partido cuja luta seria descobrir as falas de cada região do Brasil.

Cadê os lingüistas deste país? Sinto falta de um tratado geral das sotaques brasileiros. Não há nada que me fascine mais. Como é que as montanhas, matas ou mares influem tanto, e determinam a cadência e a sonoridade das palavras?

É um absurdo. Existem livros sobre tudo; não tem (ou não conheço) um sobre o falar ingênuo deste povo doce. Escritores, ô de casa, cadê vocês? Escrevam sobre isto, se já escreveram me mandem, que espero ansioso.

Um simples” mas” é uma coisa no Rio Grande do Sul. É tudo menos um “mas” nordestino, por exemplo. O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem Leia o restante deste artigo »

Comentários (1)

Hilda Hilst: a poeta que não sabia amar

De personalidade complexa, cristalina e sem artifícios, a autora de “Qadós” continua sendo lembrada três anos após sua morte

por Antonio Naud Júnior

Hilda Hilst - poeta

A última palavra que ouvi da boca de Hilda Hilst soou terrível, como uma punhalada mortal: “Judas!”, disse-me emocionada, chorando. Era o fim de um bonito relacionamento, causado por um modesto ensaio de 14 páginas, “Hilda Hilst - A Consciência Inquieta e Atormentada”, sobre a sua vida e obra, que eu havia escrito com a única finalidade de presenteá-la de forma original no dia dos seus 62 anos. Semanas antes, ingenuamente, havia enviado cópias do texto para alguns amigos da autora de “A Obscena Senhora D” (1982), pedindo confirmação a respeito de alguns fatos abordados. Um deles (ou mais de um?) aproveitou a situação para num golpe fulminante cortar a minha cabeça, já que em todos os reinos existem ciumeiras e intrigas. Afastado da abelha-rainha, nunca mais voltei a vê-la. Logo eu, um garotão maluco por ela, que amava passar finais de semana na sombria Casa do Sol, um sítio próximo de Campinas.

Encantado com a voz bonita, de tom articulado e grave, desfiando histórias picantes, eu ria com o humor demolidor da idosa dama desiludida. Conversávamos fervorosamente sobre extraterrestres, experiências místicas, Deus, poesia, filmes, atores, cineastas. Ela me perguntava coisas sobre a minha vida, impressionada com o meu nascimento numa Leia o restante deste artigo »

Comentários

O Amor nos Tempos do Cólera - o filme

Filmagens de “O Amor nos Tempos do Cólera” começam na Colômbia

O elenco é internacional, o diretor é inglês, o diretor de fotografia é brasileiro e o autor do romance que inspirou o filme é o colombiano Gabriel García Márquez. A transposição cinematográfica de ‘O Amor nos Tempos do Cólera’, que estréia nos cinemas no outono do hemisfério norte, está tomando forma em Cartagena de las Indias, na Colômbia, pátria do escritor apelidado de Gabo.

O desafio, segundo o produtor Scott Steindorff, é tornar palatável para o público norte-americano, viciado em comédias românticas, uma história de amor em que, como nota o jornal “Los Angeles Times” em longo artigo, “os protagonistas têm mais de 30 anos e não se chamam Angelina Jolie e Brad Pitt”.

“Me chamam de louco. Segundo os critérios hollywoodianos, não me comporto como uma pessoa normal”, disse Steindorff. Em vez de se ater aos cânones seguros de Los Angeles, o produtor decidiu Leia o restante deste artigo »

Comentários

As Cidades e os Símbolos

Por Italo Calvino

Caminha-se por vários dias entre árvores e pedras. Raramente o olhar se fixa numa coisa, e, quando isso acontece, ela é reconhecida pelo símbolo de alguma outra coisa: a pegada na areia indica a passagem de um tigre; o pântano anuncia uma veia de água; a flor do hibisco, o fim do inverno. O resto é mudo e intercambiável – árvores e pedras são apenas aquilo que são.

Finalmente, a viagem conduz à cidade de Tamara. Penetra-se por ruas cheias de placas que pendem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas figuras de coisas que significam outras coisas: o torquês indica a casa do tira dentes; o jarro, a taberna; as alabardas, o corpo de guarda; a balança, a quitanda.

Estátuas e escudos reproduzem imagens de leões delfins torres estrelas: símbolo de alguma coisa – sabe-se lá o quê – tem como símbolo um leão ou delfim ou torre ou estrela. Outros símbolos advertem aquilo Leia o restante deste artigo »

Comentários

A vantagem de envelhecer

Por Marcelo Rubens Paiva

Quando você envelhece, descobre que os amigos ranzinzas ficam mais ciumentos, prática sem cura, e você pára de implicar com ele e se diverte. Como pára de implicar com o blefador, que continua o mesmo, com o pão-duro, que só piora, com o teimoso, que insiste mais em suas opiniões, mesmo se estiverem furadas.

Descobre que o engraçado tem novas e mais sofisticadas tiradas, e que a risada dele continua estremecendo o baralho.

Descobre que a ressaca do uísque é melhor do que a da pinga, que prosecco e champanhe são só para brindar, que o vinho tinto argentino melhora a cada safra.

Descobre que a comida deve vir com pouco sal e a salada, com muito azeite.

Descobre que tomate e maçã fazem bem e embutidos, mal. Que queijos magros são mais aconselháveis do que aquele brie ou emental.

Descobre que em inauguração de restaurante Leia o restante deste artigo »

Comentários (1)

A valise de meu pai

Reproduzimos abaixo parte do discurso que o escritor Orhan Pamuk proferiu ao receber o Prêmio Nobel 2006

Orhan Pamuk

Dois anos antes de sua morte, meu pai entregou-me uma pequena valise cheia de escritos, manuscritos e cadernos seus. Assumindo seu habitual jeito zombeteiro e jovial, ele disse que queria que eu os lesse depois que houvesse partido, com o que queria dizer, depois que morresse.

‘Dê uma olhada’, ele disse, parecendo um pouco embaraçado. ‘Veja se tem alguma coisa aí que você possa usar. Talvez depois que eu me for você possa fazer uma seleção e publicar.’

Estávamos no meu estúdio, rodeados de livros. Meu pai procurava um lugar para depositar a valise, andando de um lado para outro como alguém que quisesse se livrar de um fardo penoso. Por fim, ele a pousou em silêncio num canto remoto. Foi um momento embaraçoso que nenhum de nós jamais esqueceria, mas depois que ele passou e voltamos a nossos papéis usuais, tocando a vida com leveza, nossas personas joviais, zombeteiras se recompuseram e nós relaxamos. Conversamos então como sempre fazíamos sobre as coisas triviais do cotidiano, os intermináveis problemas políticos da Leia o restante deste artigo »

Comentários

Os domingos precisam de feriados

Toda Sexta-feira à noite começa o Shabat para a tradição judaica. Shabat é o conceito que propõe descanso ao final do ciclo semanal de produção, inspirado no descanso divino no sétimo dia da Criação. Muito além de uma proposta trabalhista, entendemos a pausa como fundamental para a saúde de tudo o que é vivo.

A noite é pausa, o inverno é pausa, mesmo a morte é pausa. Onde não há pausa, a vida lentamente se extingue. Para um mundo no qual funcionar 24 horas por dia parece não ser suficiente, onde o meio ambiente e a terra imploram por uma folga, onde nós mesmos não suportamos mais a falta de tempo, descansar se torna uma necessidade do planeta.

Hoje, o tempo de ‘pausa’ é preenchido por diversão e alienação. Lazer não é feito de descanso, mas de ocupações para não nos ‘ocuparmos’. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. E a incapacidade de parar é uma forma de depressão. O mundo está deprimido e a indústria do entretenimento cresce nessas condições. Nossas cidades se Leia o restante deste artigo »

Comentários

« Publicações anteriores ·