Arquivo de LITERATURA

O cigarro de palha e o mineiro

Alberto Deodato

caipira
 Caipira Picando Fumo
 Almeida Junior, Pinacoteca - SP

O cigarro de palha é genuinamente mineiro. O fumo pode ser goiano. A palha, gaúcha. Mas o cigarro é mineiro. Não é que os filhos dos outros estados não o fumem. O nortista, o sulista, o paulista, todos o fumam. Mas fumador mesmo é o mineiro. os que o fumam, de outros estados, o fazem por vários motivos. Vício. Prazer. Gosto. Cheiro. Fumam e jogam fora como um outro cigarro qualquer. Mas, ao mineiro, o cigarro de palha tem outro sentido e outra profundidade. Não é apenas um pito. O cigarro de palha lhe compõe a Leia o restante deste artigo »

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O lugar mais importante casa

Por Rubem Alves

Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma.

cozinha

Nas Minas Gerais onde nasci o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado. Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as crianças Leia o restante deste artigo »

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O vento - Pablo Neruda

El viento es un caballo
O vento é um cavalo
 

óyelo como corre
ouça como ele corre

por el mar, por el cielo.
pelo mar, pelo céu.

Quiere llevarme: escucha
Quer levar-me: escuta

como recorre el mundo
como percorre o mundo

para llevarme lejos.
para levar-me longe.

Escóndeme en tus brazos
Esconda-me em teus braços

por esta noche sola,
por esta noite somente,

mientras la lluvia rompe
enquanto a chuva abre

contra el mar y la tierra
contra o mar e a terra

su boca innumerable.
suas incontáveis bocas.

Escucha como el viento
Escuta como o vento

me llama galopando
me chama galopando

para llevarme lejos.
para levar-me longe.

Con tu frente en mi frente,
Com teu peito em meu peito,

con tu boca en mi boca,
com tua boca em minha boca,

atados nuestros cuerpos
nossos corpos atados

al amor que nos quema,
ao amor que nos queima,

deja que el viento pase
e deixa que o vento passe

sin que pueda llevarme.
sem que possa levar-me.

Deja que el viento corra
Deixa que o vento corra

coronado de espuma,
coroado de espuma,

que me llame y me busque
que me chame e me busque

galopando en la sombra,
galopando nas sombras,

mientras yo, sumergido
enquanto eu, submerso

bajo tus grandes ojos,
debaixo de teus grandes olhos,

por esta noche sola
por esta noite somente

descansaré, amor mío.
descansarei, meu amor.

 

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L. I. V. R. O.

Por: Millor Fernandes

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de
tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas,
Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios,
circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma sequência de páginas numeradas, feitas de papel reciclavel e são capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua sequência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso poossibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade! Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. E que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário. Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo a próxima página.

O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo. O comando “browse” permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos a venda já vêm com o equipamento “índice instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo, a capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar de um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro.

Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma L.I.V.R.O.

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Paulo Coelho: afinal, ele escreve bem?

A marca do Coelho

O maior fenômeno editorial do país mostra que o casamento entre texto de qualidade e capacidade narrativa nem sempre é essencial para tornar um autor bem-sucedido .

artigo de Ronaldo Albanese

Falar da obra de Paulo Coelho do ponto de vista dos especialistas e da crítica é sinônimo de polêmica. Em raras vezes há coincidência de opinião a respeito de seus livros. Especialmente quando o olhar se volta a uma análise objetiva e mais criteriosa das possíveis qualidades do escritor carioca e de sua eventual contribuição para a literatura e a língua portuguesa.

Traduzida em mais de 60 idiomas, sua obra vendeu mais de 65 milhões de exemplares no mundo. Com O Alquimista, que vai virar filme em Hollywood, chegou ao topo dos mais vendidos em 18 países. Desde 2002 é membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira número 21, que foi de Roberto Campos.

A entrada na ABL é considerada por muitos um sinal de que o escritor quer fazer uma travessia mais ampla que a de Santiago de Compostela: a de “mago” a “escritor”, como aponta Richard Romancini, das Faculdades Integradas Rio Branco, que em 2002 defendeu na USP mestrado sobre o autor de Diário de um Mago.

Até anos atrás, Coelho não parecia desconfortável em ver-se vinculado a dotes que enfatizavam o esoterismo de seus livros - no início da carreira, por exemplo, fizeram-lhe Leia o restante deste artigo »

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“Gerundismo”

Pasquale Cipro Neto*

Onde estaria a inadequação de frases como “O senhor pode estar anotando o número?” ou ‘’Um minuto, que eu vou estar transferindo a ligação”, que hoje em dia pululam e ecoam nos escritórios, no telemarketing etc.?
O problema não está na estrutura - “flexão dos verbos ‘ir’, ‘poder’ etc. + estar + gerúndio” -, mas no mau uso que dela se tem feito.
Essas construções são da nossa língua há séculos, ou alguém teria peito de dizer que uma frase como ‘’Eu bem que poderia estar dormindo” é inadequada?
Qual é o problema então?
Vamos lá.
Quando se diz, por exemplo, “Não me telefone nessa hora, porque eu vou estar almoçando”, indica-se um processo (o almoço) que terá certa duração, que estará em curso, mas - santo Deus! -, quando se diz ‘’Um minuto, que eu vou estar transferindo a ligação”, emprega-se a construção “vou estar transferindo” para que se indique um processo que se realiza imediatamente.
Quanto tempo se leva para a transferência de uma ligação? Meses ou segundos? O diabo é que, para piorar, “Vou estar transferindo” é uma verdadeira contorção verbal, que substitui, sem nenhuma vantagem, a construção “Vou transferir”, mais curta, rápida, direta - e apropriada para a operação, que será imediata.
A moda do “gerundismo” (essa de “O senhor tem que estar pegando uma senha”, “Vamos ter que estar trocando a embreagem do seu carro”, “Ela vai precisar estar voltando aqui amanhã”, “A empresa vai poder estar fornecendo as peças” e outras ultrachatices semelhantes) só tem uma coisa de bom: o caráter democrático.
Traduzo: a praga pegou da telefonista ao gerente, da faxineira ao diretor-presidente.

Regra básica: o Gerúndio indica uma ação em andamento, um processo verbal ainda não finalizado,que não é imediato, que demandará tempo, uma ação durativa. Adquire uma função parecida à do advérbio.
Ex: Estou finalizando os exemplos deste verbete. (correto)
Ex: Já estamos recebendo as inscrições para o vestibular. (correto)
Ex: Estarei aguardando notícias durante o prazo estabelecido. (correto)

* Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, consultor e colunista de diversos órgãos da imprensa e o idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura.

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A estante essencial

Confira as indicações dos títulos indispensáveis, na opinião de profissionais da área

RÉGIS BONVICINO, POETA: A reedição de A Vida como Ela É, de Nelson Rodrigues (Agir): traz mais textos do que a edição da Companhia das Letras, apresenta relatos como Agonia, peça mórbida digna de Edgard Allan Poe, e reapresenta essa obra-prima, A Dama do Lotação O Império Derrotado, de Keneth Maxwell (Companhia das Letras): pela análise original e rigorosa da conquista da democracia em Portugal, em 1974, e da independência de suas colônias Poesia da Recusa, de Augusto de Campos (Perspectiva): o melhor tradutor de poesia do Brasil Orestes Barbosa, de Carlos Didier (Agir): porque amplia a visão que se tem do autor da extraordinária letra de Chão de Estrelas, revelando o repórter, o romancista, o cronista León Ferrari, de Andrea Giunta (Cocac Naify/Imprensa Oficial de SP): porque o argentino Ferrari é um dos dez principais artistas plásticos vivos do mundo, mantendo-se avant-garde sem ser repetitivo, surpreendente e crítico ao longo de décadas e também pela qualidade gráfica da reprodução de seus trabalhos.

JOSÉ CASTELLO, JORNALISTA E ESCRITOR: O Último Leitor, de Ricardo Piglia (Companhia das Letras): que reafirma, ao tratar de escritores como Kafka, Joyce, Borges e Flaubert, o vigor do ensaio como um gênero tão nobre, e tão elevado, quanto a poesia e a ficção A Máquina de Ser, de João Gilberto Noll (Nova Fronteira): reunião de relatos breves e devastadores daquele que é hoje o mais radical, o mais corajoso, mas também Leia o restante deste artigo »

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Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

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