Hilda Hilst: a poeta que não sabia amar
De personalidade complexa, cristalina e sem artifícios, a autora de “Qadós” continua sendo lembrada três anos após sua morte
por Antonio Naud Júnior

A última palavra que ouvi da boca de Hilda Hilst soou terrível, como uma punhalada mortal: “Judas!”, disse-me emocionada, chorando. Era o fim de um bonito relacionamento, causado por um modesto ensaio de 14 páginas, “Hilda Hilst - A Consciência Inquieta e Atormentada”, sobre a sua vida e obra, que eu havia escrito com a única finalidade de presenteá-la de forma original no dia dos seus 62 anos. Semanas antes, ingenuamente, havia enviado cópias do texto para alguns amigos da autora de “A Obscena Senhora D” (1982), pedindo confirmação a respeito de alguns fatos abordados. Um deles (ou mais de um?) aproveitou a situação para num golpe fulminante cortar a minha cabeça, já que em todos os reinos existem ciumeiras e intrigas. Afastado da abelha-rainha, nunca mais voltei a vê-la. Logo eu, um garotão maluco por ela, que amava passar finais de semana na sombria Casa do Sol, um sítio próximo de Campinas.
Encantado com a voz bonita, de tom articulado e grave, desfiando histórias picantes, eu ria com o humor demolidor da idosa dama desiludida. Conversávamos fervorosamente sobre extraterrestres, experiências místicas, Deus, poesia, filmes, atores, cineastas. Ela me perguntava coisas sobre a minha vida, impressionada com o meu nascimento numa Leia o restante deste artigo »